A terra úmida e coberta de folhas, seu berço,agora lhe parece desagradável. Com seu caule verde escuro, ela coloca suas folhas,claras e retorcidas sobre si mesmas, para fora e começa a procurar seu futuro lar. Aquela casca grossa e enorme lhe parece o melhor local para sua escalada sem fim em direção ao céu azul. Delicadamente, ela se dirige para a árvore à sua frente e encosta gentilmente, até mostrar suas garras. Pequenos ramos em formato de dedos, em número superior a dez e próximos a cada nó de seu caule, seguram firmemente na casca da árvore sem pedir licença ou avisar suas intenções.
As folhas, antes fechadas, agora se abrem em formato de coração. As primeiras são verdes,unidas,com um tom claro, macias e finas. Muito bonito de se observar. Com a evolução de sua escalada sobre seu hospedeiro, novas folhas surgem e as antigas, agora mais maduras e distantes, adquirem um tom mais escuro, tornando-se grossas e resistentes.
Algumas começam a envelhecer e sua cor passa para um tom entre o amarelo e o vermelho, mas são poucas quando comparadas com a grande quantidade de corações verdes que escalam a árvore em direção ao infinito. Bem no extremo mais distante de seu ramo, surge, do caule de uma de suas folhas, protegido por uma grossa carapaça com o interior vermelho, o seu fruto. Ele parece uma espiga nova, amarelo claro com milhares de formações que lembram sementes. Seu cheiro assemelha-se ao de um pepino, diferenciando-se do odor das folhas, que lembram a grama molhada. Porém, mesmo pensando que sua escalada ao alto não tem fim, o peso de suas folhas, seu caule e seu mais novo segmento, o fruto, tornam a tarefa de segurar-se em seu lar muito difícil. O vento é um poderoso inimigo nesse momento. Sua força implacável desestabiliza o que lhe parecia eterno e, em um grande susto, ela despenca de forma vertiginosa em direção ao que antes fora sua morada. No desespero da queda, ela não percebe que seu forte caule, formado por resistentes fibras longitudinais e paralelas, não permitirá que ela se desligue totalmente de seu hospedeiro.
E a planta permanece pendurada ao vento, que agora não lhe parece mais um grande inimigo. Seu crescimento contínuo a leva em direção àquela terra úmida coberta de folhas.
NÃO! Ela pensa. Não quero voltar para a terra. Quero ficar na minha amiga que me protege do sol excessivo e me dá suporte! Contudo, essa não é uma escolha dela, e seu crescimento a faz tocar no solo.
Então, o inesperado ocorre. Surgem duas raízes diferentes. A primeira, escura que penetra firmemen te no solo em busca de nutrientes, enquanto que a segunda, superficial ao solo, grossa, mais clara e maior que a primeira, se encarrega de guardar a água necessária para uma nova escalada. Com seu caule verde escuro, ela coloca suas folhas claras e retorcidas para fora e começa a procurar seu antigo lar.